Quarta-feira, 26 de Junho de 2013

Obrigatório viver pela metade?!

 

Em tempos em que até o Gajo que finalmente se encontra desempregado* se declara cansado de não fazer nada, que um psiquiatra afirma que “o meu coração chora quase todos os dias pela horrível confusão e sofrimento que o mito do amor romântico gera”** e que muitas mães à minha volta, me afirmam que eu jamais me sentirei completa sem o meu filho, urge no meu ser, perceber o que afinal significa “sentir-se completo”?

 

O que é isto de sentir-se completo? Quem tem poder de preencher espaços no nosso ser, de forma a que sintamos que vazio nenhum persiste para colmatar? Será um trabalho? Um amor? Um filho? O que é que tem poder para cumprir tão difícil tarefa?

 

Na verdade, penso que todos nós temos vazios dentro de nós, que podem tornar-se uma verdadeira tortura, se não os conseguirmos aceitar. Também é verdade, pelo menos a minha verdade, que muita gente ignora os seus vazios ao tentar colocar outras pessoas, para apaziguar a inquietação da sua existência. É igualmente verdade, que muitos de nós se agarram a coisas infindáveis, para encher o saco da insatisfação, na esperança que aquela tralha toda, nos consiga distrair o tempo  suficiente desta escuridão, até perceber a peça que realmente está em falta.

 

Mais uma vez, o que significa estar completo? Bem, estar incompleto é mais fácil de definir... Sentir que falta algo é bem mais fácil de identificar, ficando apenas a certeza da tortura que é, não saber do que se trata. Mas afinal, o que é que já sei? Sei que posso pesquisar toda a informação do mundo, que isso não me fará ter menos medo de enfrentar os obstáculos da vida, não me fará acertar em tudo, fugindo do erro e não irá evitar que sofra com consequências imprevistas. O que sei também, é que enquanto procuro, não faço e enquanto não faço, perco a oportunidade de me maravilhar com tudo o que de bom me poderia estar a acontecer.

 

O que sei mais? Sei que ninguém se preenche com alguém que não seja a sua própria pessoa. Posso estar incompleta sozinha, mas ninguém me pode complementar. Seja marido, filho, primo, cão ou papagaio, ninguém no mundo tem esse poder redentor de nos resgatar do nosso sofrimento. Porque é que sei isso, porque vejo muita gente a colocar o peso da culpa no próximo. Mulheres que dizem perder tudo se o marido sair porta fora, mães que constantemente fazem por serem indispensáveis na vida dos seus filhos, filhos que optam por se deixar embalar para não enfrentar a vida, e podia seguir por aí fora. O que sei disso é que se resume a desrespeitar o amor em si e no limiar, não termos amor próprio. Porque amar para mim, é um extra que tenho o privilégio de desfrutar. É algo que me transcende e me liberta, o contrário deixaria de ser amor e passaria a ser cativeiro.

 

E é isso que eu sei, não parece muito, mas também não será pouco. O que me poderá preencher o vazio? Não sei bem ainda o que será. Mas tenho de continuar a minha viagem e procurar por todo o lado. Sei que desistir não é solução. Sei que posso iludir-me com a próxima descoberta, mas também sei, que não há outra forma de encontrar que não passe pela procura. E se no final do dia nos dizem que temos de ficar satisfeitos com o que temos, eu cá afirmo que não podemos baixar os braços enquanto não sentirmos todos os recantos da nossa alma a pulsar de vida. E sei que talvez haja quem nunca se encontre verdadeiramente, mas penso que neste caso, já seria um grande conforto, saber que deram tudo por tudo para lá chegar.

 

O que eu sei, é que não possuímos ninguém e nada nos pertence a não ser nós mesmos. E nisso é que temos de trabalhar, em nós, na nossa existência e no que deixaremos para o mundo. É isso que sei, que sou do mundo, deste planeta e que tenho uma missão simples. Aprender o melhor que posso, fazer o melhor que souber, deixar o melhor de mim. E isso só posso fazer com sinceridade, justiça e coragem. Isso só posso fazer, abrindo mão de tudo, esperando que dos breves momentos de partilha, consiga sugar todo o potencial desta junção, o tempo que tiver de durar. E esperando ser forte o suficiente, para partir quando já nada restar e de deixar partir quando o mundo prometer um novo começo.

 

Só assim serei alguém, por mim e para o mundo.

 

*https://www.facebook.com/finalmentesouumgajodesempregado?fref=ts

**http://dharmalog.com/2012/08/01/o-mito-do-amor-romantico-a-visao-do-psiquiatra-m-scott-peck-sobre-as-buscas-irreais-nas-relacoes/

publicado por murimendes às 17:05

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Ninguém me tira a minha liberdade!

 

Enquanto desempregada, devo confessar que me fartei de cuspir para cima, nos tempos áureos, em que tinha trabalho... Por outro lado, na verdade, existe muita gente, que como eu, gosta(va) de dizer, que quando se precisa faz-se qualquer coisa, seja o que for... E numa lógica terráquea, tudo o que sobe, acaba por descer e tenho levado neste último ano, com bastante do meu cuspo em cheio no meio da cara!

 

Hoje lá me arranjei para ir até ao centro de emprego, pois estava convocada para comparecer ao dito sitio, a fim de me ser apresentada uma proposta de trabalho. A sensatez, valha-me a dúvida, fez-me tomar um calmante antes de abrir a porta e ir à minha vida. 9h15, lá estava eu às portas do meu destino e a observar pela pinta de quem entregava o seu papel, semelhante ao meu, que a proposta seria para loja. Nós as lojistas já sabemos reconhecermo-nos pela “pinta”...

 

Bem, 9h30 para lá das 9h40, lá nos vem chamar uma senhora, que nos convida a entrar nos confins do inferno (sim porque a sala estava a ferver e claro que nós nem temos direito a melhor do que isso). Lá começa ela a dialogar e a apresentar a sua proposta, cheia de poder e de razão, violando várias leis do trabalho, mas convicta da sua proposta de valor. E vira-se para cada uma de nós a perguntar o que achávamos e se estávamos interessadas.

 

Depois de algumas de nós não mostrarem interesse em trabalho de escravidão, pago a ordenado mínimo, sai da manga da senhora, o cartão “vocês estão desempregadas, esta é a vossa área de experiência e portanto só têm de aceitar ou cortam-vos o subsidio”. E aí o meu coração bateu a mil, juro que bateu. Valeu-me o alprazolam à saída de casa, a garrafa de água e os rebuçados que estão sempre comigo...

 

Senti hoje pela primeira vez, o peso da humilhação do desemprego. Vem aquela emperuada, encostar-me à parede, desvalorizando o argumento de se ter filhos pequenos ou até de algumas estudantes, sem possibilidade de fazer horários rotativos, sem prejudicar o que é mais importante para cada uma, neste preciso momento. Isto quando, algumas tinham manifestado interesse!

 

E aí realizo que Portugal e talvez o mundo, têm um problema bem grave. Nós não somos o nosso trabalho. Nós, humanos felizes, temos prioridades que não incluem o trabalho em primeiro lugar. Nós, humanos, temos dignidade e temos liberdade. E sim, recebo o subsídio de desemprego, mas meus amigos, também paguei impostos sobre os meus ordenados para ter esse privilégio e pago todos os dias impostos sobre o que consumo para viver. E sabem que mais, ainda levo o João ao pediatra, no privado para ter um atendimento digno, e levo-o à creche privada para garantir que os seus melhores interesses são respeitados e podia continuar por aí fora.

 

Portanto sim, recebo subsidio de desemprego, mas não, não sou obrigada a rebaixar-me perante uma senhora que talvez se sinta uma Deusa ao exercer o seu poder de decisão, se nos lixa a vida ou não. Sim quero trabalhar, sentindo-me motivada e realizada, sabendo que o que faço tem valor para além de mim e que ninguém fica prejudicado com o exercício das minhas funções. Por isso não, lá porque tenho experiência em loja, não quer dizer que seja a minha vocação e vá dar tudo de mim por aquele trabalho.

 

Portanto, em vez de apresentarem propostas de trabalho segundo a experiência, que tal explorar outras áreas e preferências? Fazer um verdadeiro acompanhamento a cada indivíduo, em vez de nos fazer apresentar a cada 15 dias, tal presidiários com termo de residência e de nos chamar a comparecer, para queimar tempo com actividades que em nada nos ajudam?

 

Por isso hoje senti sinceramente uma forma de opressão, que nunca tinha experienciado. E por mais estranho que pareça, realizei depois de ir comprar o meu pão (eu sei, mas é quando me chegam as epifanias), que a maior parte das pessoas gosta de desrespeitar regras básicas de  cidadania, mas demasiado poucos realmente levantam a cabeça e exigem respeito, quando realmente a situação o requer. Eu também posso ser esperta e ter o poder de estacionar na passadeira depois de não ter parado sequer para dar prioridade aos peões, agora fazer frente às pessoas que nos humilham por pura recreação, só porque tem lugares de poder, já é coisa de insubordinado...

Nunca vi povo tão certo da sua autoridade e tão obediente ao poder ilusório alheio.

publicado por murimendes às 12:31

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