Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

As Flores do Meu Jardim

 

São os pequenos pensamentos que nos incomodam e que ignoramos, que se tornam nos medos que não enfrentamos e depressa acabam por nos minar a nossa confiança, as nossas expectativas e a nossa alegria de viver. E o que começa num incomodo inofensivo, acaba num terror irracional, tal bola de neve a rolar pela encosta, aumentando à medida que vai descendo e acabando numa avalanche incontrolável. Assim acontece o pesadelo. Quando deixamos que todos os nossos pequenos pensamentos que nos provocam emoções tóxicas, cresçam impunes na nossa mente, sem resposta, sem confronto.

 

Aí sim, instala-se a agonia de viver, o sufoco de respirar, a dor do desespero. E começa a doer, tudo faz doer, como se o nosso coração estivesse a ser arrancado a sangue frio. Tudo nos assusta. Passamos a viver na escuridão e mesmo nos dias bons, existe sempre um pensamento furtivo que derruba qualquer esperança que tenhamos em alcançar dias melhores.

 

Mas na realidade, não existe nada que nos esteja a ameaçar. Na realidade, apenas deixamos que as ervas daninhas crescessem no nosso jardim. Confesso que olho pela janela, e o meu terraço tem um aspecto desolador. Há quatro anos, todos os dias eu cuidava dele, por pouco tempo que tivesse, esforçava-me por mantê-lo bonito. Por regar as plantas, arrancar as ervas que insistiam em crescer em todos os vasos. Hoje o meu terraço está com um ar deplorável, mal cuidado e deprimente.

 

A verdade é que um dia deixamos de ter vontade. Um dia não estamos disponíveis. Um dia não temos tempo. Um dia deixamos para amanhã. Um dia, damos conta que o nosso jardim está repleto de ervas daninhas e mal conseguimos recordar a beleza que antes tinha, o bem que nos fazia sentir, o orgulho que tínhamos no resultado do nosso trabalho...

 

E com as ervas, só há uma solução: arrancá-las pela raiz! Matá-las ao mínimo sinal de vida. Caso contrário, teremos uma praga difícil de controlar. Mas mais importante ainda, há que tratar do resto do jardim, das plantas, das flores, das arvores e do relvado. É preciso tratar da terra que dá vida, regar e adubar. É preciso deixar o sol chegar onde ele é necessário. Porque todos sabemos que não é possível livrar-se para sempre das ervas daninhas, mas todos sabemos também que um jardim não se cuida sozinho. Dependendo de nós, a beleza que ele voltará a transparecer.

 

Fico aborrecida por olhar pela janela, porque me descuidei e deixei as minhas flores morrerem. Deixei que a vida fosse desvanecendo aos poucos e em nenhum momento me esforcei por manter a beleza que tanto me enchia a alma. As minhas flores eram lindas e deixei-as morrer, a cada desculpa que arranjava para não calçar as luvas e meter as mãos na sujidade. Hoje por isso, decido que vou recomeçar do zero. Vou pegar nas minhas sementes, e vou plantá-las, dar-lhes vida e cuidar delas para que comecem a crescer e voltem a encher de luz o meu terraço.

 

Eu bem sei que um jardim arruinado e descuidado é desolador. Sei que parece impossível voltar a tê-lo como um dia foi. Mas eu digo que é possível, pode até ficar melhor do que foi, diferente do que foi. Um dia após outro. Começando pelo primeiro vaso, pelo primeiro canteiro, pelo primeiro metro quadrado de terreno. Usem tudo o que tiverem. Não parem a meio! Não desistam! Levem o vosso tempo e sobretudo não caiam no desespero de achar impossível recuperar a vida. Foquem-se no objetivo, na beleza que vos desperta os sentidos, pensem nisso no final do dia, quando estiverem debaixo de água, retirando toda a sujidade que esse trabalho implica.

 

Preservem o que vos é precioso, mesmo que esteja a definhar e que pareça ter um destino sem volta. Dediquem toda a vossa força para salvar o que vale a pena para vocês.  Não tenham receio de mudar conforme vos parecer mais certo. Não existe uma maneira universal de organizar o jardim,por isso, arrisquem, descubram, aprendam. Mas mais importante: FAÇAM! Se não formos nós a cuidar dele, quem o fará? Se não formos nós a imaginá-lo quem o fará? Não o deixem sucumbir ao vosso descuido. Este é o vosso jardim, esta é a vossa vida.

publicado por murimendes às 17:30

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2 comentários:
De Vanessa Dias a 19 de Janeiro de 2013 às 01:38
Li esta tarde, achei maravilhoso e, como ultimamente opino, opino, opino pelos cotovelos, tenho que dizer que é um dos textos que até hoje li que melhor expressa a capacidade de perceber o que é preciso mudar, como mudar e porquê mudar. E uma coisa é verdade: aquilo que nos rodeia é também um espelho do nosso interior. Eu costumava viver no meio do caos, por isso a minha vida era um caos também, e (dada as resoluções de Ano Novo) agora vivo no semi-caos. Hei de chegar ao «super organizado» mas é sem dúvida uma aprendizagem e batalha contínua para se estar atento e não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Porque se deixamos... quando damos por nós já as trepadeiras nos taparam a boca. :-)
De murimendes a 29 de Janeiro de 2013 às 16:31
Opina à vontade, que eu gosto de comunicar para aprender!

Aí sim, não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, quando o que temos para fazer é algo que nos é importante, para seguir caminho!

Mas vou voltar a cuidar do meu jardim e não tarda vai ter um novo brilho, que não tinha há muito tempo!

Que nada nos tape a boca nunca!!!! :)

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