Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

Esta Doce Loucura

 

Quando saio de casa, normalmente, o caminho que vou percorrer para chegar ao meu destino, já está traçado na minha mente. Quando entro num espaço que desconheço, pela primeira vez, garanto em primeiro lugar que sei onde ficam as saídas. Já subi 10 andares para ir a uma entrevista, porque tenho receio de ficar trancada num elevador. As filas de trânsito deixam-me nervosa. Ando sempre com um rebuçado no bolso, como se ele fosse o supra-sumo do pânico. Rio-me, falo como uma doida e gaguejo sempre que estou nervosa. Quando estava grávida de 2 meses e ainda não se via nada, um simpático senhor africano chegou-se ao pé de mim na praia de Sesimbra e colocou-me uma pulseira no pulso, dizendo que era para dar sorte... Mesmo gasta e já partida, ela anda comigo na minha mala, para todo o lado! A minha casa tem requintes de geometria descritiva na sua arrumação. Não tenho paciência para conversas da treta e ir às compras ao fim de semana faz-me praguejar com alguma arte... “And the list goes on”

 

Louca, é o que sou. São tantos os males de que padeço, que prefiro já nem abrir a boca para não ter um diagnóstico de internamento urgente, numa extensão de 3 a 4 páginas, relatando as minhas avarias técnicas mais profundas. Mas sabem que mais? Estou farta! Farta de ser catalogada a cada espirro. Farta de ser tratada como algum tipo de aberração da sociedade por aqueles que vivem a mágoa em silêncio e apontam o dedo ao seu próprio sofrimento na esperança que ele desapareça. Mas mais farta ainda estou, de me tratar a mim própria, como um caso de estudo raro. Como uma peça de barro já cozida que tem de ser retalhada e ajustada para encaixar num qualquer formato pré determinado e normalizado, onde eu e uma boa parte da humanidade simplesmente, não cabemos.

 

Estou farta. Farta de lutar contra essa minha maluquice que não se ajusta ao mundo. Farta de insistir em conseguir entrar em elevadores e não sentir receio. Farta de tentar não programar a minha viagem, ficando sem saber onde virar, onde parar e onde inverter a marcha. Farta de sorrir em convívios sociais e participar em diálogos infrutíferos. E farta também, de esconder o meu rebuçado para ocultar aos olhos de quem me rodeia o meu mau estar, a minha terrível loucura.

 

E hoje lá realizei que a minha única loucura, a verdadeira e derradeira loucura, é apenas uma! Deixei o medo destruir os meus sonhos. Desisto deles um a um, porque me deixo vencer pela minha inércia. A felicidade está a um simples passo da minha vida, mas tenho tanto pavor de alcançá-la, que todo o meu corpo paralisa. A minha alma massacra-se por cada passo que o corpo não dá. Isso sim é loucura, saber que se pode ter o que se quer e não o agarrar. Saber a resposta à pergunta que nos vai excarcerar, mas mesmo assim, manter a cabeça baixa e os lábios cerrados.

 

E se alguns parecem temer sua capacidade em alcançar o sucesso eu afirmo que a minha determinação é tanto a minha maior aliada como a minha pior inimiga. Ela ajuda-me a traçar o caminho, mas puxa-me igualmente à persistência, mesmo depois do sonho já não o ser. A minha determinação não se ajusta, não se molda nem se altera perante a minha vontade. A minha determinação não me deixa desistir de tentar, mesmo quando já é tempo de abrir mão.

 

E descubro assim que afinal, o meu maior medo de todos é o medo de mim própria. O medo da minha liberdade. Calei tanta vez a minha voz em prol da quietude alheia que temo já não saber ouvi-la. Percebo assim hoje, que a minha luta está na frente errada. Os sonhos são para proteger e por eles devemos erguer todas as nossas armas. É pela felicidade que temos de dar tudo, pois para cumprirmo-nos temos de batalhar. A cada noite podemos ter novos sonhos e por isso temos todo o direito de fazer deles o que queremos. Do que não devemos desistir por nada nem ninguém é da esperança, da imaginação ou do desejo. Fazer o contrário é que é loucura. Só assim podemos desencarcerar a nossa alma, que neste passo desenfreado se sente aprisionada e vai perdendo a sua força a cada sonho que desvanece no horizonte.

 

Talvez seja afinal, tempo de abraçar esta doce loucura e apenas viver.

publicado por murimendes às 17:48

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1 comentário:
De Vanessa Dias a 6 de Fevereiro de 2013 às 01:36
É, afinal, tempo de abraçar a doce loucura, com os dois braços e pernas :-) Também fico cansada do fingimento... e não poderia estar mais de acordo: lutar contra a própria natureza é o primeiro erro. Se não a aceitamos, pensamos que os outros também não aceitam e só vemos isso, a não aceitação... ultimamente não penso nisso, tento simplesmente ser. Hoje, engraçado, dei por mim a conseguir ignorar pessoas que me fazem sentir mal/anormal, porque simplesmente me foquei em ser e distraí-me delas. Mas por outro lado também dei comigo a ver ainda mais podres em certas pessoas, que tentam passar à frente para conseguir o «sucesso» ou lá o que elas pretendem... eu que acho que sinto o mesmo que tu, medo do sucesso, e penso no que é preferível. Ter este medo, que faz pensar e que controlado até dá a possibilidade de avançar nos sonhos, ou não ter medo, nem descaramento... esta loucura parece-me bem pior e ainda mais anormal. :-)

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