Sábado, 20 de Abril de 2013

Porque os olhos escolhem, por vezes, não ver...

À luz dos últimos acontecimentos na maratona de Boston e dos inúmeros post’s “facebookianos” e não só, sobre o porquê de todos ficarem tão chocados com os americanos e tão pouco chocados com as mortes na Syria ou noutra parte do mundo... E seguindo o meu desejo de obter respostas, para além de fazer perguntas e comentários que em nada proporcionam aprendizagem ou crescimento, perguntei-me a mim própria, porque realmente lá no fundo, pareço sentir mais a desgraça americana do que a de outros povos, geralmente, mais pobres e a morrer numa base diária.

 

E por muito que queiram deixar transparecer que os media, não dão voz aos países do terceiro mundo, ditos em vias de desenvolvimento no corrente século... A realidade é que já nos massacraram demais. Lembro-me que há uns anos atrás, via deliberadamente nas noticias a toda a hora, pessoas mortas por bombas, milícias, guerras, fome... Era a toda a hora, e a toda hora via aquelas imagens de coração destroçado, entre a injustiça e o desespero de nada poder fazer.

 

É engraçado, que sem ter graça nenhuma, também me lembro duma aula de comunicação que tive, enquanto estava a tirar a minha licenciatura em marketing. E era muito simples. Falávamos de tácticas publicitárias e de estilos de mensagem. Esta coisa de se fazer boa publicidade, tem muito que se lhe diga e abordamos naquele dia as mensagens “duras”. O que retirei daquele ensinamento foi tão simples quanto isto: quando queremos transmitir uma mensagem, temos de avaliar o impacto dela no receptor.

 

Assim, se queremos apelar a algum perigo (seja consumo de droga, condução, álcool, tabaco), é preciso ter cuidado com a mensagem. Porque mensagens demasiado “pesadas” irão ter um efeito de indiferença. Porquê? Porque a nossa mente, valha-nos Deus..., tem uma missão apenas. Defender-nos do perigo e do sofrimento. E quando fazem uma publicidade para apelar à segurança na estrada em que colocam uma família feliz de viagem a espetar-se num camião e a morrer toda, o sofrimento brutal que causa psicologicamente nalguns cérebros, faz com que a mensagem seja desvalorizada e ignorada, a bem da preservação da nossa sanidade mental. A exposição a situações chocantes não nos torna insensíveis, faz com que nos protejamos da violência psicológica que nos provoca. Se os olhos não vêm, o coração não sente certo? Aqui não é diferente.

 

Como tal, e voltando ao assunto inicial, porque é que parecemos “importarmo-nos” mais com as explosões de Boston? E cada um que refere isso, como se o resto do mundo fosse insensível ou supérfluo, olhe bem para dentro de si e pense a sério no assunto... Porquê? No meu ponto de vista resume-se a isto: em Boston, tivemos 3 mortos e 176 feridos. E com isto eu posso bem, posso permitir-me sentir a perda de três pessoas e das suas famílias. Posso permitir-me sentir a aflição de 176 feridos, mesmo que alguns amputados, mas que terão o melhor apoio possível, para recuperar as suas vidas depois deste incidente. Porque vivem num país  com um potencial enorme, que dá oportunidades a todos e que tem cuidados médicos desenvolvidos que lhes devolverá a vontade de viver quase tal e qual como era antes.

 

Nos países pobres? Vejo guerras, pessoas mutiladas todos os dias, pessoas que morrem sem causa, crianças com fome e sem cuidados básicos de saúde. Vejo milhares e milhares de humanos a caírem que nem tordos, sem ninguém parecer querer ou sequer poder fazer nada contra isso. Vejo dor e sofrimento nos olhares daquelas gentes. Vejo o vazio que lhes percorre a alma e vejo a esperança que há muito se desvaneceu. E isto parte-me o coração, tentar sentir a dor de milhões de pessoas no mundo, é simplesmente lancinante. Morrem a cada minuto no mundo, 5 crianças com fome, num dia são 7200 crianças por dia, 50400 crianças por semana... Com isto eu não consigo viver. Com isto, sujeito a minha mente a um sofrimento excruciante, o qual se estivesse presente na minha mente de facto, iria retirar-me qualquer fé na humanidade e validade na beleza de se estar viva.

 

E é por isso, que me comove, 3 mortos e 176 feridos. E por isso que já nem vejo, já nem me sujeito a saber, quantos morrem à fome, quantos morrem em atentados à bomba diariamente, quantos perdem à vida porque uma vacina é um luxo, quantos são vitimas do comércio ilegal de armas, quantos sucumbem às drogas, quantos são explorados na indústria dos diamantes.

 

Se querem começar por algum lado, comecem por estar gratos com a vida que têm e sobretudo com a comida do prato, o acesso ao SNS mesmo que decadente (para os nossos níveis de exigência de um mundo evoluído), ainda dão vacinas contra o sarampo, a varicela o tétano, tuberculose e meningite. Estejam gratos pelo tecto que tem, canalização, rede de esgotos, gás canalizado e electricidade. Pelos vossos frigoríficos, micro ondas e máquinas de lavar roupa. Pelo vosso sofá e a vossa TV. Pelas Aspirinas que lutam contra a dor de cabeça. Pelos anéis de noivados. Por saberem escrever e ler. E penso que não preciso ir mais longe...

 

Chega de hipocrisia e de inocência ignorante! O mundo é como é porque nós decidimos ser como somos. Bem que o “outro” dizia, para sermos a mudança que queríamos ver no mundo. Mas aí, parece, que o louco sonhador era ele...
publicado por murimendes às 12:53

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1 comentário:
De Vanessa Dias a 24 de Abril de 2013 às 12:52
Amo. :)
Mais uma vez sou suspeita como de costume... pois estes temas são o palpitar do meu coração e por estranho que pareça o meu brilho nos olhos. Eu acho que a nossa sociedade precisa de lutar contra a aversão ao medo - sim, não podemos fazer prevenção pelo medo, mas temos que desbastar um pouco os mecanismos de defesa de cada um e da sociedade, porque são eles que nos tornam cegos às mais brutas e "verdadeiras" barbaridades sociais, morais, cívicas... Por outro lado, temos que passar a mensagem de esperança, optimismo... no fundo cultivar um optimismo realista. Sim, acontece, muito do que acontece não pode ser remediado, mas podemos mudar as pessoas, podemos mudar o mundo, o que já não é somente algo idealista - é algo que pode ser trabalhado no duro e fruto disso são os resultados de inúmeros activista históricos. Um livro que acho que vais adorar, sobre estes temas: "Portugal, o medo de existir", de José Gil. Fala sobre nós, portugueses, mas também sobre estes fenómenos das mensagens, da televisão, do "inactivismo" face a massacres...

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