Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Ninguém me tira a minha liberdade!

 

Enquanto desempregada, devo confessar que me fartei de cuspir para cima, nos tempos áureos, em que tinha trabalho... Por outro lado, na verdade, existe muita gente, que como eu, gosta(va) de dizer, que quando se precisa faz-se qualquer coisa, seja o que for... E numa lógica terráquea, tudo o que sobe, acaba por descer e tenho levado neste último ano, com bastante do meu cuspo em cheio no meio da cara!

 

Hoje lá me arranjei para ir até ao centro de emprego, pois estava convocada para comparecer ao dito sitio, a fim de me ser apresentada uma proposta de trabalho. A sensatez, valha-me a dúvida, fez-me tomar um calmante antes de abrir a porta e ir à minha vida. 9h15, lá estava eu às portas do meu destino e a observar pela pinta de quem entregava o seu papel, semelhante ao meu, que a proposta seria para loja. Nós as lojistas já sabemos reconhecermo-nos pela “pinta”...

 

Bem, 9h30 para lá das 9h40, lá nos vem chamar uma senhora, que nos convida a entrar nos confins do inferno (sim porque a sala estava a ferver e claro que nós nem temos direito a melhor do que isso). Lá começa ela a dialogar e a apresentar a sua proposta, cheia de poder e de razão, violando várias leis do trabalho, mas convicta da sua proposta de valor. E vira-se para cada uma de nós a perguntar o que achávamos e se estávamos interessadas.

 

Depois de algumas de nós não mostrarem interesse em trabalho de escravidão, pago a ordenado mínimo, sai da manga da senhora, o cartão “vocês estão desempregadas, esta é a vossa área de experiência e portanto só têm de aceitar ou cortam-vos o subsidio”. E aí o meu coração bateu a mil, juro que bateu. Valeu-me o alprazolam à saída de casa, a garrafa de água e os rebuçados que estão sempre comigo...

 

Senti hoje pela primeira vez, o peso da humilhação do desemprego. Vem aquela emperuada, encostar-me à parede, desvalorizando o argumento de se ter filhos pequenos ou até de algumas estudantes, sem possibilidade de fazer horários rotativos, sem prejudicar o que é mais importante para cada uma, neste preciso momento. Isto quando, algumas tinham manifestado interesse!

 

E aí realizo que Portugal e talvez o mundo, têm um problema bem grave. Nós não somos o nosso trabalho. Nós, humanos felizes, temos prioridades que não incluem o trabalho em primeiro lugar. Nós, humanos, temos dignidade e temos liberdade. E sim, recebo o subsídio de desemprego, mas meus amigos, também paguei impostos sobre os meus ordenados para ter esse privilégio e pago todos os dias impostos sobre o que consumo para viver. E sabem que mais, ainda levo o João ao pediatra, no privado para ter um atendimento digno, e levo-o à creche privada para garantir que os seus melhores interesses são respeitados e podia continuar por aí fora.

 

Portanto sim, recebo subsidio de desemprego, mas não, não sou obrigada a rebaixar-me perante uma senhora que talvez se sinta uma Deusa ao exercer o seu poder de decisão, se nos lixa a vida ou não. Sim quero trabalhar, sentindo-me motivada e realizada, sabendo que o que faço tem valor para além de mim e que ninguém fica prejudicado com o exercício das minhas funções. Por isso não, lá porque tenho experiência em loja, não quer dizer que seja a minha vocação e vá dar tudo de mim por aquele trabalho.

 

Portanto, em vez de apresentarem propostas de trabalho segundo a experiência, que tal explorar outras áreas e preferências? Fazer um verdadeiro acompanhamento a cada indivíduo, em vez de nos fazer apresentar a cada 15 dias, tal presidiários com termo de residência e de nos chamar a comparecer, para queimar tempo com actividades que em nada nos ajudam?

 

Por isso hoje senti sinceramente uma forma de opressão, que nunca tinha experienciado. E por mais estranho que pareça, realizei depois de ir comprar o meu pão (eu sei, mas é quando me chegam as epifanias), que a maior parte das pessoas gosta de desrespeitar regras básicas de  cidadania, mas demasiado poucos realmente levantam a cabeça e exigem respeito, quando realmente a situação o requer. Eu também posso ser esperta e ter o poder de estacionar na passadeira depois de não ter parado sequer para dar prioridade aos peões, agora fazer frente às pessoas que nos humilham por pura recreação, só porque tem lugares de poder, já é coisa de insubordinado...

Nunca vi povo tão certo da sua autoridade e tão obediente ao poder ilusório alheio.

publicado por murimendes às 12:31

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