Domingo, 7 de Julho de 2013

Do sonho à realidade

 

Quando era miúda, lembro-me que todas as minhas amigas sonhavam em casar na igreja (de vestido branco, véu e blá, blá, blá), ter filhos e pronto. Eu cá sonhava em ser alguém, ser eu, em pleno. Sonhava tirar um curso, sair daquele buraco, alugar um T0 em Lisboa, ter um cão e um trabalho que me fizesse sentir realizada, onde eu seria útil e valorizada... A realidade é que sentia a pressão de me comportar como um homem se quisesse ser notada no mundo e depreendia (pelas conversas de mães, que juravam sacrificar quem são a bem do marido e dos filhos), que criar uma família, não incluía desenvolvermo-nos como pessoas no seu sentido absoluto. Dado este panorama, escolhi de bom grado, aos meus 14 anos, que o meu objectivo primordial, seria cumprir-me.

 

Mas a vida assim não aconteceu. Algures pelo caminho, deixei esta miúda partir, largando os seus sonhos, as suas convicções e a sua derradeira vontade de vencer na vida, na primeira pessoa. Passei-me para segundo plano, perdi a bravura e acomodei-me aos papeis secundários (quase de figurante mesmo...). Neste registo subserviente perante a vida, conheci o Luís na universidade, compramos casa, 2 cães e fizemos o João. A lógica quis que não encontrasse um trabalho de jeito e acomodei-me às evidências, não querendo desafiar o próprio medo e deixando o tempo passar, vivendo à sombra da pessoa que um dia almejei ser.  O perfeito cenário, a cortina ideal para me esconder por detrás.

 

E pergunto-me o que resta de mim? Que pessoa é esta que está sempre disposta a motivar quem a rodeia, que inspira até os desconhecidos a sonhar sem limites, se ela própria apenas parece ficar-se pela conversa, não arranjando coragem de partir para a acção? Que medo é este que me paraliza e me faz vacilar cada vez que me aproximo dos meus desejos? Enquanto o sentimento de perder for maior do que o de ganhar, serei incapaz de sair deste impasse e não sei como posso saltar esta barreira...

 

E isso leva-me a pensar, será possível realizarmos os nossos sonhos de criança, ou seriam eles reflexo da nossa pura inocência? Será que mesmo válida a hipótese de se alcançarem alguns, outros deveriam ficar para viver a dormir apenas?  Será que ser adulto é levar a vida a sério e deixar-se de pieguices? Será que ser crescido, significa fazer sacrifícios pelos outros e deixar as vontades, para o plano do nosso imaginário? Será que há quem tenha tanto medo de viver, que prefira dormir acordado, para não se arriscar à desilusão da realidade?

 

Confesso que a semana passada, andei a destralhar freneticamente o meu T2, desapegando-me de tudo o que não tinha utilidade, sem dó nem piedade. Estas fúrias já me são familiares, pelo que tentei parar 2 segundos para me perguntar o que não estava bem comigo... Qual era afinal, a minha necessidade de deixar tudo tão limpo, tão simples e tão funcional, nesta casa? E cheguei à conclusão que por muito que limpasse a casa e a deixasse mais leve, o mesmo não estava a acontecer à minha mente, cada vez mais desinquieta.

 

E percebo finalmente, percebo que é este medo. Um medo tremendo de me desafiar e de me provar que estou errada e certa ao mesmo tempo. Medo de ter de assumir o comando e de ter a cortina a abrir-se para a minha entrada. Medo de viver os meus sonhos e medo de me perder neles. Medo de perder o controlo. Medo de dar o passo seguinte e de nada voltar a ser como era. Medo de largar. Medo de conquistar... Porque sei que na vida, existem momentos que mudam tudo, que mudam quem somos e que mudam para sempre o modo como vemos o mundo à nossa volta. E se eu mudar, quem ficará cá para mim, pela pessoa que me irei tornar?

 

E penso que não estou pronta para arriscar-me a perder algumas coisas fantásticas que tenho.  Não estou pronta para renunciar ao que me é importante. Não estou pronta para descobrir, quem gosta de mim se eu for, apenas eu, sem a máscara, sem artifícios, sem enganos nem ilusões. Ou será que afinal, não estou é pronta para saber se eu própria gosto desta pessoa que quero ser, para além das minhas fronteiras? Se esta pessoa resulta na pratica? Se esta pessoa, não se tornará uma completa desconhecida, para quem sou hoje? E afinal interrogo-me, quem é esta pessoa hoje? Para além de uma sombra de quem sonho ser?

 

Certo? Certo.

publicado por murimendes às 22:49

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4 comentários:
De Just_Smile a 8 de Julho de 2013 às 00:22
Tenho apenas 22 anos e terminei há poucos dias o meu curso superior, a verdade é que já namoro há quase 6 anos e sempre deixei assente que primeiro era eu e o meu curso antes dele. Talvez um acto egoísta, uma acto de criança e infantil, mas o meu maior receio é um dia vir a arrepender-me de me perder em alguém e não saber quem sou... Ao ler as tuas palavras, vejo que o meu secreto medo é que ele e o sentimento que nutro por ele me limite em cumprir objectivos meus, apenas meus, um segredo que me tem seguido ao longo dos anos... Mas não queria perder a minha essência... Ao ler as tuas palavras, percebo que o medo de perder é maior que o desejo de ganhar, mas porque não encontrar um equilíbrio entre os dois e partilhares isso com quem partilhas a tua vida? Sei que sou uma miúda... mas percebo os teus receios...
De murimendes a 8 de Julho de 2013 às 12:18
Olá!

Podes até ser uma miúda, mas tens toda a razão. E não acho que sejas egoísta, penso sinceramente, depois da experiência, que devemos estar sempre em primeiro lugar, porque é a única forma de sermos o melhor de nós, até para quem nos rodeia.

E tens razão no que dizes, não podia estar mais feliz com a minha família, apenas tenho de me libertar do pensamento que me "castrou" por assim dizer. A minha cabeça de 14 anos, não tinha informação suficiente para ver com olhos de ver.

A verdade é que podemos ter tudo sim, só temos de fazer cedências e equilibrar as coisas. Muitas mães nos fazem crer que ter um filho "acaba" com as nossas pretensões, porque tendo-os, temos de sacrificar tudo por eles e viver a seu favor. Felizmente, o meu filho tem 18 meses e apercebi-me que é totalmente ao contrário, nunca como antes quis tanto voltar a afirmar-me enquanto pessoa, porque eu sou o seu melhor exemplo!

E quero que ele seja quem quer ser e isso nunca vai acontecer se eu for uma pessoa sem sonhos, sem coragem e sem determinação. A única barreira aqui a ultrapassar, são os anos de pensamentos errados. Mas vou conseguir, sei que vou.

E espero que tu também consigas, porque é possivel termos uma familia e não nos anularmos dentro dela. Fácil é arranjar desculpas, mas o caminho complicado é sempre mais proveitoso.

(partilhar, já partilhei e ele é demasiado bom para mim, porque faz parecer tudo tão simples, que me assusto ainda mais com a sua aceitação, na pessoa que eu sou e quero ser)

Uma boa semana

Beijos ;)
De FT a 8 de Julho de 2013 às 01:54
Olá,

Muitas vezes o medo surge fortemente... não de nós próprios mas de nós sobre os outros. O que os outros pensarão? O que os outros esperam de nós? O que a sociedade considera invulgar ou errado?

Deixamos de viver imensa coisa devido ao preconceito ou às regras que a cultura onde vivemos impõe. Eu prefiro ser eu. Eu sincera e eu honesta.

A paz vem de dentro. Não de fora dos outros. Força para correr atrás de si, de quem você é e dos seus sonhos!
De murimendes a 8 de Julho de 2013 às 12:24
É bem verdade. Durante muitos anos tentei ser aquela pessoa que agradava a todos (não com muito sucesso...), mas de repente quero recuperar-me e receio que as pessoas mais importantes para mim, não partilhem do mesmo sentimento por essa pessoa que sempre fui, mas que sempre escondi, a bem de uma harmonia ilusória. Já nem me ralo com "os outros" no geral, o que é um grande avanço, mas acho que no limiar estou preocupada em descobrir se eu vou gostar da minha nova "eu". Se me desiludir, o que acontece depois? Como me dizem frequentemente "tu inventas os problemas!" :)

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